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Pãozinho de batata salsa (pode chamar de pão de queijo vegano).

28/03/2016 - 4 Comentários - Receitas | Café da manhã, Queijo, Sem açúcar, Sem glúten, Sem laticínios, Sem ovos, Vegano

Lembra o famoso ditado, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.
Bom, faz sentido pra mim.
Se eu pintar um cavalo de listrado, não é a mesma coisa que uma zebra. Pode ter um jeitão parecido, e eu nem sei de fato qual é a diferença, mas sei que existe.
Certamente há quem me considere obtusa mas, pra mim, dizer “omelete sem ovos” é um contrassenso (no entanto, preparo e almoço feliz da vida uma fritada de grão de bico).

Suponho que para muita gente, pode parecer que as pessoas “naturebas”, “vegetarianas”, “veganas”, “paleo”, que não comem glúten ou laticínios, todas são parte de um mesmo grupo coeso.
Como se pode imaginar, isso não é verdade.
Cada um tem lá seus motivos para fazer as escolhas que faz, e mesmo pessoas que tenham uma dieta muito parecida, podem ter motivações muito distintas.
Acho que a tentativa de imitar determinados pratos usando ingredientes diferentes acontece quando uma pessoa tem uma limitação alimentar (ou uma opção) que a impede de comer algo que ela gosta, ou que consome por hábito há muito tempo.
Um exemplo ótimo para este caso é o pão sem glúten, opção de quem se sente melhor se deixar de consumir, ou diminuir bastante, o trigo.
Outro exemplo bem comum é gente que deixa de consumir carne por compaixão, ou por razões ambientais, mas gosta do sabor e procura substituir com produtos de soja.
Eu, que não gosto do sabor e da textura da carne, não sinto falta de bifes, hambúrgueres, salsichas, bolonhesa, presunto. Eventualmente, sinto falta de comer coxinha de frango (é praticamente um ritual passar por lanchonetes duvidosas e comer uma coxinha se eu for viajar de ônibus).

Pessoalmente, vejo um punhado de boas razões para diminuir o consumo de produtos animais no cotidiano. Porém, muito mais importante do que a discussão sobre consumir ou não produtos animais, é escolher e consumir comida que seja produzida com respeito – à própria comida, à terra de onde ela vem, às pessoas que trabalham na lavoura/pesca/pecuária/transporte/venda/cozinha. A gente vota com o garfo, a gente vota quando abre a carteira, essa é a hora em que de fato apoiamos a produção local ou as grandes empresas.

Talvez soe bicho grilo falar em respeito a terra, mas é bem objetivo. Se a lavoura não leva pesticida, se não for produzida em latifúndio de monocultura, se a gente preza pela biodiversidade (comprando verduras diferentes cada vez que vai na feira); os recursos não se deterioram, o veneno não corre nas veias de quem planta e de quem come.

O mesmo vale para carne/leite/ovos: se os bichos vivem como bichos, e não dentro daquele sistema industrial, se comem lavagem em vez de hormônio e antibiótico, se são abatidos em condições decentes; tanto os próprios bichos quanto quem trabalha com eles e quem consome, vai estar bem cuidado.

Voltando pro começo do post: quando torço o nariz para algumas versões veganas, sem lactose ou sem glúten de pratos tradicionais, é pela vontade de abrir portas pra explorar ingredientes pelo que eles são.
Quantas coisas será que uma amêndoa pode virar além de leite?
Quantos cardápios de café da manhã podem existir sem pão?
Eu não sei, mas tenho curiosidade em descobrir. O mundo é tão grande. 

Sejam uns docinhos, e saibam que meu bode não é uma forma de desrespeito, ok?
O assunto é fundo e complexo, e o meu ponto de vista não significa que desconsidero os dos outros. Pelo contrário, faço questão de escutar.

Agora, dando o braço a torcer, aqui vai uma receita de pãozinho de batata salsa (pode chamar de pão de queijo vegano, se quiser). É muito gostosa e muito democrática: não tem glúten, nem ovos, nem lactose, nem grãos, nem soja.
Fica boa feita na hora, fica boa se congelar para assar depois, e fica até que boazinha se for comida no dia seguinte ao que assar. 

Copiei a receita do caderno de uma amiga sem saber a fonte, mas ao que parece é da Bela Gil.
Esta publicação da receita faz parte da campanha #foodlovers, da Filippo Berio, em que eu e mais um bocado de pessoas apaixonadas por comida fomos convidados para dividir bons pratos que levam azeite de oliva.

Se faz assim:
300g (2 xícaras) polvilho azedo
200g (2 xícaras) polvilho doce
2/3 xícara de azeite de oliva
500g batata salsa (há quem chame de batata baroa ou de mandioquinha)
1/3 xícara de água
1 colher de chá de sal marinho
Medidas aqui

Lavei bem a batata salsa e coloquei para cozinhar, com a casca, até ficar macia. Leva mais ou menos 10 minutos. (Em uma das vezes que preparei esse pãozinho, eu não tinha em casa 500g de batata salsa, por isso inteirei a quantidade com batata doce. Ficou muito bom também).

Enquanto cozinhava, medi polvilhos (depois de pesar, medi o volume. Realmente, o polvilho azedo é mais denso, por isso que pesos diferentes dão a mesma quantidade de xícaras), o sal, e reservei em uma tigela.

Escorri a água do cozimento e reservei. No liquidificador, bati a batata salsa (com a casca), o azeite, e 1/3 xícara da água do cozimento, até ficar um purê bem liso. Se você estiver sem liquidificador, pode descascar as batatinhas e amassar com garfo.

Juntei a mistura do liquidi (não precisa esperar esfriar) aos secos e fui mexendo com colher de pau. O objetivo é obter uma massa parecida com massinha de modelar, que não esteja dura e nem pastosa. Se der para moldar bolinhas sem que esfarele ou grude na mão, está ótimo. Depois que a massa esfria, fica um pouquinho mais firme do que enquanto está morna.
No meu caso, precisei adicionar mais água para chegar ao ponto de enrolar. Faço isso acrescentando bem pouquinho de cada vez que é pra não perder a mão.

Como no pão de queijo tradicional, pode-se moldar bolinhas com porções de uma colher de sopa, ou fazer montinhos pegando a porção com uma colher, e empurrando para a assadeira com outra.
Pode-se assar imediatamente, ou congelar para assar em outro momento. Para mim, essa quantidade de massa rendeu 50 pãezinhos (maravilha: assei 25 e congelei 25).

Dispus os pãezinhos em assadeira sem untar, deixando uns 2cm espaço entre eles, pois crescem um pouco com o calor.
Pré-aqueci o forno a 200oC e assei por 35 minutos. Se quiser que fiquem com o topo coradinho e neste tempo ainda não tiverem pego cor, suba a temperatura para 250oC e deixe mais alguns minutos. Só não vai fazer como eu, e se distrair pela casa quanto os pãezinhos estão no forno...
Quando optar por congelar, pode levar direto do congelador ao forno pré-aquecido. 

Sobre os ingredientes:
- A batata salsa junto com o azeite de oliva, especialmente se o pãozinho ficar meio salgado, lembram o sabor tradicional do pão de queijo. Mas a mesma textura pode ser obtida usando batata comum, batata doce, cará, inhame e afins.
- Se trocar o azeite de oliva por outro tipo de óleo, pode-se acrescentar 3 colheres de sopa de levedo de cerveja. Ainda não experimentei esse ingrediente, mas é bastante usado em receitas que imitam queijo.
- Já preparei essa receita só com polvilho azedo, e achei que ficou bom. De toda maneira, no Laboratório dos Sentidos, li que: o polvilho doce deixa a massa mais puxenta, e o polvilho azedo torna o pãozinho mais aerado e expandido, mas tem gosto forte). 

Na hora em que saem do forno, os pãezinhos têm a casca crocante e quebradiça, e o interior bem macio, uma delícia! Engraçado que a casca ficou mais crocante quando moldei as bolinhas do que quando coloquei a massa na assadeira às colheradas.
Se os pãezinhos assam por menos tempo (ou seja: quando não chegam a ficar com o topo marrom), a casca perde a textura crocante depois que esfriam, embora continuem gostosos.

Ta aí uma ótima opção para lanche (inclusive pra levar na bolsa), petisco, café da manhã. Gosto de deixar uns desses no congelador para o caso de surgir uma visita inesperada.

E vocês, como se relacionam com a substituição de ingredientes ou versões de pratos tradicionais?
Contem nos comentários!

Nos vemos no instagram e no facebook (ps: marque #blogflorarefosco quando fizer os pãezinhos, pra eu ver que tal ficaram :)

18/04/2016 22:44:42

Fabiana

Comentário
Que delícia chegar aqui através de um link pro meu blog (o Laboratório dos sentidos)! As tuas fotos são lindas, o teu texto uma delícia, e é maravilhoso saber que gente tão bacana já me leu! Cara, esse assunto toca muito o meu coração. Sou vegana e celíaca, e no meu blog transformo receitas afetivas em versões veganas - por ai, já dá pra imaginar, né? rs... Quando penso em "veganizar" um prato, gosto de brincar com os tipos de sabores, texturas e cores, e acho que isso sai bem melhor do que tentar imitar o prato original. Acho que isso ajuda a gente a entender como os nossos gostos são construídos, que elementos que transformam uns ingredientes num prato memorável. E a partir dai, poder optar, por exemplo, em só comer comida vegetal. Divaguei um pouco, mas queria mesmo deixar um alô pela felicidade da descoberta <3

Resposta da Flora
Gente, que coisa mais querida teu comentário! Acho que precisamos trocar mais figurinhas. Adorei ler teus posts e salvei algumas das receitas, mas por ora só me aventurei com o pãozinho (ta faltando conseguir uns mamões verdes ;) Esse assunto da formação do gosto é bem delicado, bem pessoal, e passa por questões que não são de escolha, né? Como o exemplo de ser celíaca. E aí as opções são feitas em torno deste contexto. Mas acho uma delícia olhar os pratos e os ingredientes pelo que são em si, tem tanta coisa gostosa que a gente não imagina quando pensa em reproduzir comidas "tradicionais" com outros ingredientes... Pra mim, é tudo novidade, quero conhecer um monte de ideias e panelas nesse Brasilzão afora. Beijos!

28/03/2016 13:36:37

Sandra

Comentário
Ah! Até estávamos conversando sobre isso outro dia! Compreendendo que cada pessoa tem as suas necessidades, maneiras, modos, peculiaridades, penso que simplesmente cada ingrediente pode ser ele mesmo sem parecer alguma outra coisa. Reviro os olhos para o alto na insistência geral em preparar alimentos similares aos doces, para dietas com restrição ao açúcar utilizando adoçantes em demasia quando poderia ser pesquisada a obtenção de sabores doces em outras misturas e combinações inusitadas. E pensando nas carnes, lembrei dos cogumelos que possuem textura e sabor que lembram o sabor da carne de forma mais eficaz, na minha opinião, do que a proteína de soja. Só divagando! Beijos!

Resposta da Flora
Oi Sandrinha! Obrigada por passar, deixar seu comentário. Acho que a gente pensa bem parecido. Existem tantas formas de cozinhar (sem falar em outros âmbitos) que a gente pode procurar além das que já conhece :) Volta sempre! Beijos.

28/03/2016 13:20:18

Sandra

Comentário
Flora, que post gostoso de ler e lindo de ver!!! Parabéns! Beijos!

28/03/2016 11:56:41

Laura

Comentário
Que lindos. Eu tenho uma receita bem parecida. Adoro esses paezinhos, mas os meus não ficam lindos assim, com essa casquinha! Outra coisa, os meus SEMPRE ficam sem sal. Há um descompasso enorme do sabor da massa crua e da assada em relação ao sal. Vou experimentar seguir sua receita! Beijinhos

Resposta da Flora
Quando os meus saem do forno, em geral acho que podiam ficar mais salgadinhos também. Engraçado né? Depois conta que tal saíram! Beijos :)

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