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Nutrição: Porque será que saúde intestinal é tão importante?

27/03/2015 - 7 Comentários - Nutrição |

Este texto e imagem são de autoria de Laura Leite.

Há alguns meses, comecei a conhecer Laura mesmo sem conhecê-la - através dos comentários que a Jo fez acerca de suas pesquisas e estudos. A Jo e eu discutimos constantemente por email, pensando em quais seriam bons temas para abordar e elucidar aqui na coluna de nutrição. E através de conceitos que ela foi me apresentando, chegamos à conclusão de que, para entender a influência que a nutrição tem sobre nós, é fundamental conhecer como funciona o sistema digestivo, com atenção especial ao intestino.
Fiquei cada vez mais curiosa para escutar a linha de raciocínio da Laura, e finalmente fomos apresentadas quando a Jo propôs que ela escrevesse neste espaço sobre a importância de dar atenção à saúde intestinal - tanto individualmente, para termos compreensão e autonomia com nosso corpo e saúde, como no âmbito dos profissionais que atendem e orientam ao público em geral quando algo sai do eixo. Passo a palavra à Jo.

Há pouco mais de dois anos, Laura me apresentou a dieta paleolítica e toda a ciência por trás desse template nutricional ancestral. A cada dia de conversa era uma nova descoberta, uma nova maneira de pensar e agir sobre tudo o que estava relacionado com a prática nutricional convencional (aquela baseada na pirâmide alimentar, no comer de três em três horas e na prescrição genérica de divisão de macronutrientes, entre outras características). A partir daí, comecei a admirar seu esforço e sua habilidade de estudar temas complexos sobre a ciência da nutrição. Sempre que precisei de um apoio, tanto de opinião quanto bibliográfico, ela estava lá com a sua coerência. Todos meus textos foram escritos por mim com a ajuda da Flora, que conduz os tópicos através de dúvidas e perguntas que servem como guias; e também com a ajuda da Laura, que ora ou outra revisava o texto e me ajudava com leitura complementar e referência bibliográfica. O tópico "saúde intestinal" é muito importante para quem tem curiosidade sobre como nosso corpo funciona e a influência da alimentação nisso. Porém, sinto que meus estudos sobre esse órgão estão crus. E a pessoa que conheço que mais entende sobre o tema é a Laura. Então hoje, é com muita alegria no coração que Flora e eu abrimos o espaço para essa pessoa maravilhosa que tem muito a contribuir com nossa coluna. Seja bem vinda, Laura! 

Obrigada Flora e Jo pelas apresentações :)
Meu nome é Laura Mattos Leite e estou super feliz e grata pelo convite! Acho o site da Flora uma delícia de ler, cheio de imagens lindas, idéias e informações muito legais! Ele me lembra a casa da minha amada Tia Lola em Ribeirão Preto, onde por toda minha infância, eu só senti aconchêgo e amor e adorava experimentar as deliciosidades que ela fazia com tanto carinho.
Eu sou formada pela PUC RJ em Comunicação Social e trabalho também como consultora e mentora em  Comunicação Profissional. Desde 1997 comecei a me interessar mais por nutrição, pois tive uma crise séria de alergias misteriosas enquanto eu estudava yoga e morava na Índia. Consegui curar-me completamente através da eliminação do glúten e nunca mais olhei para trás.
A partir daí me certifiquei como Personal Trainer, Instrutora de Pilates, e recebi treinos de professores muito generosos e maravilhosos em diversas modalidades de movimento.
Em 2009, tive contato com a dieta “anti-inflamatória”, que radicalmente reduz as fontes de Omega 6 das refeições. Venho trabalhando e participando desde então de simpósios nesse tópico,  incluindo o que agora “está na moda” chamar - muito embora não cientificamente - de “Dieta Paleolítica”. Sempre evitei rotular dietas, pois para mim elas remetem à uma fórmula. Não acredito em fórmulas, mas sim naquilo que é melhor para cada pessoa individualmente no seu contexto de vida. Estou na fase final do curso de Nutrição de Diagnóstico Funcional e realizando um desejo de entender melhor os hormônios e poder assim ajudar melhor as pessoas. Acredito que o alimento é um remédio poderoso e vejo o ato de cozinhar como uma Arte, Terapia e Diversão. Amo cozinhar, quem quiser pode dar uma passadinha aqui no meu instagram, vou adorar a visita!
Confesso que Jo é responsável por grande parte das minhas aventuras culinárias, pois ela me inspira infinitamente e depois que a conheci, cozinhar ficou ainda mais divertido e delicioso.  Obrigada Jo! 

Vamos então falar hoje sobre esse órgão, que muitas vezes chamo de “a nossa raíz”: O Intestino.
Quem já ouviu dizer esse ditado: “Todas as doenças começam no intestino”? Pesquisando um pouquinho a gente descobre que isso foi dito há mais de 2000 anos por Hipócrates, o médico grego que pela primeira vez sistematizou o estudo da medicina e é chamado de “o Fundador da Medicina Ocidental”. 

Depois de alguns anos estudando a área de Saúde Ancestral da Medicina Funcional (que é um ramo da medicina que tem como prioridade tratar as causas dos desequilíbrios e não os sintomas), eu comecei a observar que os profissionais que se sobressaíam por ter um maior  número de casos resolvidos com sucesso, eram os profissionais que enfatizavam  saúde gastro-intestinal e que, muitas vezes a colocavam em primeiro lugar nos seus protocolos de exames e tratamentos. Percebi que muitos dos pacientes que tiveram sucesso e resolução dos seus casos contavam uma história bastante dramática de problemas de saúde bem sérios, como por exemplo, Síndrome do Intestino Irritável e alergias que debilitavam vários aspectos de suas vidas, não os deixando ter uma vida social e profissional plena. Essas pessoas procuravam ajuda e não encontravam resolução, mesmo tendo seguido protocolos de vários médicos e profissionais de saúde por muito tempo, alguns por mais de 20 anos.

Isso me chamou muito a atenção. Então venho dedicando parte do meu tempo para estudar os mistérios do microbioma, os agregados de populações de micro-organismos presentes nos intestinos e suas funções, incluindo algumas funções que para mim são surpreendentes e misteriosas. Vou então expor aqui alguns dos “achados” mais preciosos que me marcam mais sobre este tema e que venho colecionando pelos últimos anos.

Comecemos então pelo comecinho. O órgão propriamente dito, o intestino:

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Intestino - A Sua Estrutura e o Que Ele Faz:

Vemos na imagem acima, em alaranjado, a primeira parte do intestino, o intestino delgado. Essa é a área que recebe o alimento do estômago. O intestino delgado saudável tem um ambiente relativamente neutro, lá existem aproximadamente dez mil bactérias por milímetro de fluído comparado com o intestino grosso, em verde, que contém aproximadamente 1 Bilhão de bactérias por milímetro de fluído.

O intestino delgado é dividido em três partes: A primeira parte é o duodeno, com mais ou menos 25 centímetros de comprimento. Lá é onde o alimento é recebido do estômago. No duodeno ocorre a maior parte da digestão. Ácido clorídrico é injetado ali, proveniente do estômago,  como também enzimas provenientes do pâncreas, glândula biliar e fígado. No duodeno também estão presentes as enzimas produzidas na sua própria mucosa que tem papel crucial na digestão dos alimentos. 

A segunda parte é o jejuno, com mais ou menos 2,5m de comprimento. Esta área é responsável pela maior parte da assimilação ou absorção do nutrientes dos alimentos. 

A terceira parte é o íleo, com mais ou menos 3,5m de comprimento. O íleo tem função crucial na absorção de vitamina B12, e no funcionamento do fígado, através de tornar possível o retorno da bílis para ele. O íleo tem também o sistema imunológico agregado dentro de si, exercendo então a função de monitoramento das populações bacterianas dos intestinos, e evitando o crescimento de bactérias nocivas.

A mucosa interna de todas as três partes do intestino delgado tem uma estrutura parecida com a da nossa língua, com papilas, ou microvilosidades, que aumentam a superfície para a absorção dos nutrientes. Essa mucosa, no duodeno digere os alimentos e no jejuno e íleo filtra os nutrientes benéficos e os deixa passar para a corrente sanguínea.

As paredes das microvilosidades têm somente UMA célula de espessura! Elas são conectadas diretamente aos capilares sanguíneos, que entram dentro de cada uma delas, e sua estrutura é extremamente sofisticada e delicada. O fato desta mucosa ser estruturada por essas microvilosidades é uma maneira muito eficiente de aumentar a superfície de contato com os nutrientes em todas as três áreas do intestino delgado. A natureza criou um sistema tão perfeito e procurou concentrar o máximo de superfície de absorção no mínimo de espaço. Caso esticássemos e espalhássemos as microvilosidades da mucosa do intestino delgado no solo por exemplo, ela cobriria a área de uma quadra de tênis inteirinha! 

A parte em verde na imagem é o intestino grosso, que tem por volta de 1,5m de comprimento. De modo geral ele é composto de: ceco, onde encontra-se o apêndice que, como constataremos logo mais, não é apenas uma herança inútil da nossa evolução; o cólon ascendente, o cólon transverso, o cólon descendente e o cólon sigmóide, que é onde as fezes são armazenadas até a eliminação.

As paredes internas do intestino grosso também possuem a mucosa com somente uma camada de células, além de células que produzem muco. Nessas paredes existe também uma grande quantidade de músculos que produzem um movimento ondulatório (peristáltico) para mover o alimento adiante com o intuito de eliminá-lo. Lá também encontram-se vasos sanguíneos para absorver com máxima eficiência os nutrientes. Sim, o intestino grosso também absorve nutrientes, além de eliminá-los! Existe lá um processo de absorção de vitaminas, como a B e a K, que as próprias bactérias do intestino grosso produzem.

As populações de bactérias do intestino grosso digerem nutrientes que não foram digeridos no canal digestivo até ali, principalmente carboidratos. Outra função do intestino grosso é de retirar a água dos nutrientes e transformá-los em fezes, aí, simplesmente falando, esse material fecal é levado até o cólon sigmóide por ações musculares peristálticas e eliminado pelo ânus. 
A função da eliminação é primordial! Pois quando o alimento não é eliminado, pode haver uma mudança de PH no ambiente intestinal, e isso pode propiciar o crescimento de microorganismos patogênicos e radicais livres. Isso inclui também o caso onde a flora intestinal está desequilibrada, devido ao uso de antibióticos, ou uma dieta com muito poucas fibras insolúveis, ou pouco carboidrato em geral, o que contribui para a diminuição da fermentação, deixando assim o ambiente intestinal menos ácido e vulnerável a bactérias nocivas.

O desequilíbrio da flora intestinal, como vamos esclarecer logo mais, tem efeitos imediatos no cérebro e nos nossos hormônios que regulam a homeostase (equilíbrio, ou aquele estado onde tudo funciona com vitalidade e harmonia, quando o corpo pode experimentar integralmente a sua potência de bem estar) de todos os outros órgãos.

O intestino grosso é desenhado para funcionar plenamente com um equilíbrio constante de probióticos e prebióticos. Quando isso não acontece, as consequências em geral impactam em níveis diferentes todos os outros sistemas do corpo. Simplesmente falando, probióticos são as bactérias em si, e prebióticos são os nutrientes que alimentam essa bactérias, que as multiplicam e as fortalecem.

A nossa microbiota, ou flora intestinal, é constituída por populações ou colônias de probióticos que foram primordialmente transmitidos a nós através do contato com os microorganismos das nossas mães durante o parto e durante a amamentação. A partir daí também adquirimos outras colônias de microorganismos durante nossa vida. No entanto, existe evidência que a flora intestinal adquirida na infância vai determinar vários aspectos da nossa saúde, incluindo proteção contra infecções, se vamos ter ou não a tendência a obesidade, e também padrões psico-emocionais. 
A flora em desequilíbrio, por exemplo, tem correlação estreita com a diabetes, e os processo inflamatórios cerebrais como autismo, e também doenças auto-imunes. 

Aproximadamente 75% do nosso sistema imunológico esta localizado no intestino, pois o tecido linfático está, como uma rede, entrelaçado na mucosa intestinal. Então fica mais simples entender que cada alimento que vemos e que resolvemos ingerir, vai seguir uma rota que o levará a ter direto contato com o nosso sistema imunológico.
Além disso, aproximadamente 80% da serotonina do corpo, que tem efeitos sobre humor e comportamento social, o apetite e a digestão, o sono, a memória e o desejo sexual, é produzida no intestino. 

Em suma, sobre as funções do intestino delgado e grosso: transformamos os nutrientes que a terra nos oferece, ali na mucosa intestinal, e dali os nutrientes são injetados no sangue que por sua vez promovem o equilíbrio impecável de vitaminas, minerais, aminoácidos e outros nutrientes que o cérebro e cada órgão precisa para nos dar a vida.

Na parte 2 desse artigo, a ser publicado no final de abril, vamos explorar com mais detalhes a questão dos probióticos e prebióticos, em quais alimentos os encontramos, e como saber se estamos ingerindo a qualidade e quantidade adequada para o nosso corpo.

Nosso Segundo Cérebro?

Pense numa rede de fios entrelaçados. Essa rede permeia as mucosas digestivas desde a boca até o ânus. Ela é feita de neurônios e chama-se Sistema Nervoso Entérico. Esse sistema nervoso começou a existir muito antes do cérebro se desenvolver e muito antes da raça humana existir. Nossa espécie tem cerca de 2 milhões de anos e o circuitos Entéricos que compõem o Sistema Nervoso Entérico já existiam há 500 milhões de anos, até mesmo nos invertebrados! Isso dá espaço de sobra para a gente contemplar o quão sofisticado e avançado esse sistema é. O SNE comunica-se com o Sistema Nervoso Central através do nervo vago. Veja esta imagem abaixo do nervo vago em amarelo:

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O nervo vago origina-se na região da medula oblonga, logo acima da nossa nuca e controla os movimentos involuntários dos órgãos vitais, como o coração, pulmões, fígado, e o intestino. Para se ter uma idéia de quanto a natureza enfatiza a importância desse nervo: foi relatado que entre 80 e 90% da energia que o cérebro produz é enviada para a região onde origina-se o nervo vago. 

Nos últimos dez anos as pessoas começaram a referir-se ao Sistema Nervoso Entérico como “segundo cérebro”. Um dos fatos que mais determinou o isso foi a descoberta que, por volta de 90% dos sinais que passam dentro do nervo vago, estão vindo do intestino e indo até o cérebro, e não o contrário! Isso abriu um paradigma novo de investigação científica e um alerta para os profissionais de saúde para re-organizarem suas prioridades e começar a ter maior cuidado e atenção à saúde intestinal. Esse artigo 1 e esse estudo 2 ilustram isso. 

Mas como exatamente acontece essa conexão entre o cérebro e o intestino? Em suma, todos os nutrientes que passam pela seleção altamente sofisticada da parede de uma camada de células, chamadas microvilosidades, entram na corrente sanguínea. Estes nutrientes são levados ao cérebro através dos vasos sanguíneos, e lá no cérebro, eles estão já preparados para transpor a barreira entre o sangue e o cérebro e serem utilizados pelo cérebro.

A partir disso, entendemos numa linguagem direta, que o intestino então prepara o alimento para o cérebro. Simultaneamente a isso, o nervo vago que, como já vimos, usa a maior parte da sua energia para transmitir ao cérebro impulsos originados no intestino, também está levando mensagens de equilíbrio, de fortalecimento, de harmonia, ou de stress, distensão, inflamação para o cérebro. Assim o cérebro recebe, não só as moléculas nutritivas ou inflamatórias (citocinas inflamatórias) diretamente do sangue, mas também os impulsos nervosos, vindos do nervo vago que podem trazer harmonia, vitalidade, homeostase, ou stress, agitação e inflamação.

Finalmente, o cérebro então responde, criando um ciclo vicioso, similar a uma bola de neve descendo montanha abaixo e crescendo em volume. Uma inflamação de baixo grau é criada no cérebro, que é por sua vez retransmitida pelo nervo vago de volta ao intestino. Por isso, como veremos nos estudos a seguir, tantas doenças psiquiátricas ocorrem concomitantemente com problemas digestivos e vice-versa. 

As Surpresas Não Tão Surpreendentes:

Vamos então agora expor mais uma série de fatos que exemplificam os pontos expostos aí acima. Essas descobertas também servem como convite para que consideremos a saúde intestinal além da simples digestão e eliminação dos alimentos, mas sim, talvez, como fator determinante para o indivíduo, enquanto ele relaciona-se com o mundo, incluindo a saúde dos ossos, da pele, do cérebro, a qualidade das emoções, os processos psicológicos e mentais, o desempenho profissional, a socialização entre muitos outros. 

  • Neste estudo 3, foi documentado que entre 50 e 90% dos pacientes com Síndrome do Intestino Irritável, também sofrem de doenças psiquiátricas.

  • Este estudo 4 é mais um de um número crescente de estudos, que observa a eficácia de medicamentos “anti-depressivos” para a melhora da Síndrome do Intestino Irritável”.

  • Este estudo 5 acompanhou indivíduos por 5 e 12 anos, e traz mais evidências que o stress psicológico pode prever o início de uma desordem gastrointestinal funcional e vice- versa. É ressaltado também que tratamentos psicológicos melhoram os sintomas de disfunções gastro-intestinais.

  • Nesse estudo 6, por exemplo, conclui-se que a microbiota intestinal desequilibrada presente em crianças, é um fator determinante que prevê se essa crianças serão obesas ou não quando adultas. 

  • Este estudo 7 sobre o apêndice, pode ilustrar o fato de que tantas pessoas sofrem de problemas digestivos e consequentemente, algumas apresentam sintomas de baixo grau de inflamação cerebral, como distúrbios psicológicos e/ou mentais, antes e/ou depois da cirurgias de remoção do apêndice. Neste estudo, observa-se que o apêndice não é um órgão puramente de vestígio evolucionário, como se costumava crer. Na área do apêndice, há uma confluência de vários tecidos linfáticos com relação estreita ao sistema imunológico. A função do apêndice envolve manutençãoimunomediada da flora intestinal normal, especialmente durante episódios de desconforto intestinal. Adicionalmente, o apêndice também oferece um grau de proteção contra quaisquer potenciais contaminantes patológicos encontrados no fluxo fecal.

  • Este estudo 8 mostra que pequenas quantidades de glúten agravam sintomas como os de falta de memória, confusão mental, depressão, distensão abdominal e estomatite, num grupo de pessoas que não possuíam diagnóstico de doença celíaca, ou também não eram alérgicas ao glúten, ou seja, pessoas como a maioria de nós! 

  • Este estudo 9 ilustra a importância da eliminação, e é mais um dos vários alertas para aqueles que consomen quantidade de carboidratos insuficientes, e/ou não consomem as fibras insolúveis adequadas, para alimentar o microbioma. O texto ilustra como o ambiente de menor fermentação, ou menos ácido, deixa-nos mais vulneráveis a bactérias nocivas. 

Antes de concluir este texto vou expor aqui sobre duas das várias disbioses, ou disfunções intestinais, que vem aumentando em incidência e tomando proporções alarmantes: o Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado e a Permeabilidade Intestinal. 

O Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado, ou SBID é um aumento de bactérias, e/ou mudanças nos tipos de bactérias do intestino delgado. Essa bactérias frequentemente migraram do intestino grosso de volta para o intestino delgado. Você lembra que, em comparação ao intestino grosso, o ambiente do intestino delgado é quase neutro? (dez mil bactérias por milímetro de fluído comparado com o intestino grosso com 1 Bilhão de bactérias por milímetro de fluído). Essas bactérias “fora de lugar” causam desequilíbrio a nível fisiológico e podem até causar danos estruturais nas paredes do intestino delgado. Elas podem absorver vitaminas B, proteínas e aminoácidos antes mesmo das nossas próprias células terem a chance de absorver estes nutrientes, causando então deficiências nutricionais. Os sintomas mais comuns do SBID são: a lentidão no trânsito dos alimentos ao longo do intestino (constipação), muito embora possa haver diarréia também (que hoje em dia já a entendemos como uma outra forma de constipação), distensão abdominal e a produção excessiva de gases. 

As causas da SBID são várias, algumas delas relacionadas ao consumo de antiácidos, consumo de antibióticos e de glúten. Mais recentemente observou-se o impacto do consumo moderado de álcool como um agravante da SBID, como ilustrado neste estudo 10

Com relação a Permeabilidade Intestinal, essa é uma disfunção onde as células que formam as paredes de microvilosidades do intestino delgado são danificadas, causando um orifício nas paredes. Este espaço “aberto” na mucosa intestinal é como se fosse uma parede sem um tijolo, ou célula. Por esse orifício começa a escapar substâncias não digeridas, que não são destinadas a entrar na corrente sanguínea, como por exemplo, grandes moléculas de proteínas, levedura e até toxinas que estavam destinadas a transformarem-se em fezes. Daí por diante é como se uma grande batalha começasse a ocorrer no organismo. Primeiramente com o fígado tendo que sobrecarregar-se pra “tentar” fazer a filtragem e digestão que não foi feita na mucosa intestinal. Assim por diante, até que essas partículas de “alimento não filtrado” chegam até o cérebro, afetando e danificando vários sistemas do organismo até chegar lá. Dependendo do nível de toxicidade dessas partículas, a chegada delas ao cérebro pode ter consequências fatais. Os sintomas da Permeabilidade Intestinal também são variados, os mais comuns são alergias diversas, distensão abdominal, dores de cabeça, confusão mental, perda de memória, e fadiga, desejos por açúcar e carboidratos e ansiedade.

As causas da Permeabilidade Intestinal também são variadas. Algumas são: a SBID não tratada, stress crônico, consumo de antibióticos, dieta consistindo de açúcares, farinhas processadas, gorduras hidrogenadas e ou industriais ricas no pro-inflamatório Omega 6, conservantes e deficiência de zinco. Um agente bastante eficaz em causar danos a integridade da mucosa intestinal, resultando também em permeabilidade, é o álcool. Aqui está mais um dos inúmeros estudos que exemplifica isto: estudo 11.

Fiquem ligados à parte 2 deste artigo, que terá detalhes práticos do dia-a-dia de como conectar mais com a nossa saúde intestinal, e o que fazer para termos um microbioma que seja uma fonte de nutrição para o cérebro e todo o corpo. 
Quem sabe podemos até colaborar com Hipócrates, através da nossa própria experiência, e complementar o ditado dele que diz: "Todas as doenças começam no intestino" com a  nossa versão:  "E a saúde também pode começar no intestino!" O que você acha?

16/08/2016 16:05:32

cintia

Comentário
Olá gostaria de ver a segunda parte do material sobre intestino. aonde consigo??

Resposta da Flora
Oi Cintia! Tudo certo? A parte dois está neste link >> www.florarefosco.com/posts/Nutri--o/199/saudeintestinal-parte2 Ainda temos mais dois artigos para publicar sobre a saúde intestinal, falando de dieta e suplementação, mas não estamos com o texto pronto para publicar ainda. Vou mandar um email pra te dizer quando estiver no ar, ok? Qualquer dúvida, é só escrever pra nós! Um beijo.

08/06/2016 16:51:41

Maira

Comentário
Primeiramente, parabéns pela matéria, excelente! Gostaria de saber se a síncope do vasovagal (onde há uma hiperestimulação do nervo vago, que causa desmaios) tem relação com a SIBID. Vi que o nervo vago tem muita comunicação com o intestino, será que o desiquilíbrio nesse nervo pode levar ao aumento de bactérias ruins no intestino? Obrigada! Abraços

19/04/2015 21:56:54

Laura Leite

Comentário
Obrigada Thais pelas perguntas. Quanto ao apendice, a manutenção de uma flora saudável e portanto a diminuicao e dos sintomas inflamatórios é desejavel. O apendice proteje quando as crises inflamatórias ou patogenicas acontecem, entao evitar esses cenarios é aconselhavel. Na parte dois do artigo descreveremos alguns aspectos de como identificar os sintomas inflamatórios e algumas evidencias de como eles podem ser remediados e/ou prevenidos. A questao da ingestao dos carboidratos diaria e’ dependente do perfil de saude e de atividade fisica de cada pessoa. Mais detalhes sobre isso tambem sera incluído na parte dois do artigo. Sobre sua questao tres, em geral isso é constatável sim. A relação existe entre gluten e SBID, e é mencionada em varios estudos. Existe evidencia que, em geral, como você diz: “a digestao do gluten” (originalmente do Latin: “Glutin”, ou “cola”) e suas proteinas gliadinas e glutenina, nao é um processo simples para o corpo executar. Essas proteinas tem o proposito original de nutrir o embriao do grão para que ele possa germinar. Sendo assim um principio comum dentre vários outros anti-nutrientes contidos nos graos, pois a força nata que eles possuem de querer se transforma numa planta, que interrompemos com a colheita, processamento e consumo, nao é para ser substimada. Portanto, muito embora um grao possa ter sido, germinado, fermentado, transformado em farinha, ainda existe nele esse proposito basico evolutivo que é de transformar-se numa planta. Espero que as respostas tenham ajudado.

08/04/2015 19:35:26

Celaine

Comentário
Fico muito bem impressionada com o conjunto de conhecimentos que o site apresenta e a conexão estreita com a realidade do dia. A interação dos assuntos, das abordagens sobre eles e até das formas de escrever é muito interessante também. Também acredito em alimento como um remédio poderoso, fonte de vitalidade. Parabéns, esperando pela continuação do texto da Laura e pelas sugestões de nutrição e delicias, que deverão vir a seguir, por que além de tudo, comer bem é muito bom!

31/03/2015 16:17:38

Thais

Comentário
Oi laura! Gostei muito do texto e a clareza com que descreveu as partes do intestino e a importancia das respectivas floras bacterianas. Estou curiosa por saber mais, as causas do desequilibrio da flora intestinal, o efeito hormonal homeostatico e a alteração na produção de serotonina. Muito bom tambem a elucidação sobre a relação do sistema nervoso entérico - nervo vago - cérebro. 3 perguntas quando puderes responder: Como uma pessoa que já retirou o apêndice pode ajudar o organismo a suprir a função deste orgão? Qual é a ingestão diária adequada de carboidratos para manter um ph saudavel? E a relação da ingestão do gluten com SBID? Obrigada Laura!!!

31/03/2015 13:15:04

maria carmen bahia

Comentário
Muito intessante o artigo, em linguagem clara e precisa. Achei muito legal saber como esse orgão está ligado a outras partes como o cérebro, enfim,sua conexão com outros aspectos do corpo.

29/03/2015 21:01:23

Sara

Comentário
Muito bom o texto e o assunto escolhido! Ansiosa no aguardo da segunda parte pra saber um poquinho mais! ;)

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