Bg_site_br

2

Cozinha Conceitual e Prática – Ao terminar o curso, começam as expectativas.

22/03/2016 - 2 Comentários - Cozinha conceitual e prática |

Após terminar o curso do Senac, imediatamente me mudei para Florianópolis/SC, onde fui contratado pelo Resort Costão do Santinho como auxiliar de cozinha primeira patente. Apesar da crítica posta no texto anterior, não posso me furtar em dizer, que papéis tem o poder de se sobreporem à prática, de tal modo, só me foi necessário apresentar o diploma que fui contratado.

Fui escalado para o turno da noite na cozinha central do hotel, na maravilhosa “ilha da magia” turística. Após tirar uma linda selfie, vesti meu uniforme e fui bater meu cartão.

Desempenhei bem as funções que me foram destinadas, diversas tarefas sem grandes embaraços. Estava aquecido e empolgado, lembro-me de limpar uns 8kg de camarão absorto em devaneios. Acompanhe meu raciocínio: quando você realiza uma tarefa que exige somente um movimento contínuo, é possível se abstrair, deste modo navegamos em aspirações subjetivas; entretanto, no específico caso, qualquer singela alfinetada desferida pela casca destes camarões, eu era devolvido a dura realidade da cozinha, e neste ciclo, entre sonhos e espetadas, uma máxima imperava: ”sou cozinheiro”.

O dia (noite) finalmente terminou. Foi igualmente eterno como meu primeiro dia de estágio de meus saudosos 16 anos (nesta época citada eu não trabalhava com cozinha ainda).

Chegando a meu alojamento, com toda a virilidade de um conquistador, liguei para minha mãe (cozinheiros tem mãe), para esfregar sutilmente minhas conquistas, mas fui pego de surpresa: logo de cara ela me perguntou algo mais ou menos assim “Nossa filho estou tão feliz e orgulhosa, que bom que coisas estão caminhando. O que você cozinhou hoje?”. Essa indagação foi como uma ferroada camaronesca, parecia que alguém tinha apagado a luz. “Porra nenhuma” me veio à mente instantaneamente. Entretanto, de supetão esquivei-me. Disse secamente a primeira coisa que me veio à cabeça, “bolinho de bacalhau”, e engoli seco, ouvindo o ecoar do silêncio que vinha do outro lado da linha. Ela fingiu interesse, conversamos sobre mais algumas coisas de mãe, e nos despedimos.

Após ser devolvido ao meu quarto, automaticamente me compeli a responder aquela pergunta: “Que você fez hoje?”

Meu migué, “bolinho de bacalhau”, soava risível. Como alguém pode passar nove horas fazendo bolinho de bacalhau? Que resposta ela esperava? Talvez “Mãe, hoje fiz risoto Caprese com medalhão de filé mignon ao molho Roti, acompanhando de aspargos e presunto Parma, fiz tudo isso ouvindo jazz, e tomando uma excelente garrafa de vinho, enquanto os convivas discutiam sobre a atual conjectura econômica em que o país se encontra”.
A cozinha profissional não tem nada a ver com esta fantasia.

Somos máquinas junto de outras máquinas, trabalhamos de modo fabril, em larga escala, somos o ideal Fordiano. Quem sabe seremos diretores das selfies tiradas nos salões dos mais variados estabelecimentos desta porra toda, fotos que justifiquem o valor da conta, mas temos um segredo, NOSSA COMIDA É BOA.

Servimos como quem aperta parafusos. Um indivíduo pode descascar caixas e caixas de cebolas durante 8 horas, enquanto outro ao seu lado tira a pele de tomates, que culminarão de forma misteriosa num simples molho, parecido com aquele que você compra por apenas 2 reais, aquele famoso que é vendido no intervalo do master chef - o autêntico Pommodoro, sempre ao alcance de qualquer mão nas gondolas de mercado. Ah! Minha mãe os adora!

Nosso serviço não é pra muitos, e menos ainda para os fracos. Somos monstros, piratas no convés de um navio, nossa tripulação é de guerreiros oriundos de diversos estados, nosso capitão é um chef louco que grita aos borbotões. Nossa farda esconde tatuagens, nossa dolmã encobre cicatrizes e principalmente queimaduras, estas tão ocultas como nossa entrega. Independente da camisa, a paixão é que nos mantém vivos, pois somos apaixonados, aquecidos pelas caldeiras destas cozinhas, forjados nesse aço quente. Somos heróis destemidos nos bares da madrugada, e não recuaremos perante as tantas caixas de camarões que porventura se sobreponham em nossa caminhada.

Por Daniel Vajani, 31, remunerado pelo ramo de alimentos & bebidas de São Paulo, e alimentado pelo prazer de desbravar nossa cultura gastronômica, seja ela profissional, social ou acadêmica!

Acesse no facebook a página Cozinha Conceitual e Prática para acompanha-lo, e siga É o que tem pra hoje para saber todas as novidades do blog.

23/03/2016 00:00:04

Lucas Petronilho

Comentário
Texto mto bom, dá vontade de ler mais! Quando sai o próximo?

22/03/2016 21:15:15

Pedro luiz costa

Comentário
Sempre muito bem escrito; inclua sua formação em Letras ; logo vem um livro sobre o assunto culinario

Deixar um Comentário